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Da semente descartada ao chocolate regenerativo: como um ribeirinho do Pará transformou o cupuaçu em negócio e em causa ambiental

Elias de Nazaré, fundador da Cacau Sonho Verde, em Porto de Moz (PA), aproveita amêndoas que seriam jogadas fora para produzir o “cupulache” e gerar renda para pequenos agricultores familiares da Amazônia

Para o consumidor comum, a semente do cupuaçu não tem valor. O hábito ensina que, depois de retirar a polpa branca e ácida do fruto, as amêndoas vão direto para o lixo. Mas uma tradição de uma família de ribeirinhos no Pará mudou o destino dessa sobra. Elias Flexa, morador de Porto de Moz (PA), aprendeu com a mãe a ver valor ao que antes era descartado. “Ela juntava as sementes, secava, torrava e fazia chocolate para consumo da família”, lembra. Uma receita simples, doméstica, quase esquecida. Foi essa memória que, no meio da pandemia, veio à mente de Elias e virou negócio.

Durante o período de isolamento causado pela COVID, Elias retomou a prática da mãe. “A gente comprava cacau de agricultores da região, secava, torrava e fazia chocolate quente. Aí veio a pandemia, e eu lembrei que tínhamos árvores de cupuaçu aqui e comecei a fazer igual a minha mãe fazia”, conta Elias. O hábito permaneceu e, depois, já sem o distanciamento social, quando recebia visitas em casa ele moldava o produto em formas e cortava em barras para dar de presente. A pergunta que surgiu foi natural: por que não transformar isso em renda?

Foi preciso bastante pesquisa e cursos sobre como produzir chocolates finos, até que em 2022, com investimento na compra de uma máquina portátil para refino com capacidade de apenas 3 quilos, nasceu a Cacau Sonho Verde. O portfólio hoje conta com cerca de 20 produtos, entre eles a estrela da marca: o “cupulate”, nome criado pelo próprio Elias para o chocolate feito com amêndoas de cupuaçu, uma combinação de sabores que mistura a identidade amazônica com a tradição chocolateira.

Da floresta para a fábrica

A matéria-prima da Cacau Sonho Verde não vem de uma fazenda própria. Elias não tem plantio. Todo o cacau e todo o cupuaçu utilizados na produção são comprados de pequenos agricultores familiares da região de Porto de Moz, com quem ele construiu parcerias diretas.

“A produção de cupuaçu na cidade é grande. Mas o pessoal aproveitava só a polpa. A semente era jogada fora. Eu resolvi fazer o trabalho de aproveitar essas amêndoas. O que era descartado vira renda e valoriza o produto”, explica Elias. Na lógica da sociobiodiversidade, esse aproveitamento integral do fruto é também uma forma de preservação, pois valoriza o produto local e dá mais uma fonte de renda ao produtor familiar. “É fundamental para preservar o meio ambiente e diminuir o êxodo rural. O pequeno agricultor que tem renda deixa de vender a terra para grandes produtores que transformam tudo em pasto. Nossa preocupação é manter a floresta em pé e fortalecer a economia local”, diz.

Desafios de quem cresce na Amazônia

A Cacau Sonho Verde cresce, mas ainda produz abaixo da capacidade instalada. O gargalo não está na máquina nem na matéria-prima, mas no acesso ao mercado. Para vender fora da região, e até em outros estados, os produtos precisam de tabela nutricional, embalagem personalizada com código de barras e certificações que atestem padrões de qualidade. Dos cerca de 20 produtos da marca, apenas 4 têm tabela nutricional.

Para ele, falta acesso a crédito para ter condições de escalar o negócio, bem como assistência técnica na produção, e também na profissionalização para vencer barreiras burocráticas. Sem essa etapa, o acesso ao mercado também não é efetivo. A situação ilustra um desafio recorrente para pequenos produtores que operam em regiões remotas da Amazônia: o ecossistema de apoio institucional muitas vezes não alcança onde a produção acontece, ou chega incompleto. Enquanto isso, a demanda existe. O que falta é a ponte entre o produto e o consumidor final.

A história de Elias e da Cacau Sonho Verde ilustra como a sociobiodiversidade amazônica tem potencial de desenvolvimento econômico sustentável. O cupuaçu é um fruto nativo, cultivado por famílias em sistemas regenerativos, sem desmatar. 

O modelo também reforça a importância das práticas regenerativas nos sistemas produtivos parceiros: agricultores familiares que mantêm os frutíferos nativos e diversificam a produção têm mais resiliência econômica e contribuem ativamente para a conservação da biodiversidade. Para Elias, o chocolate proveniente da sociobiodiversidade é uma das linguagens com que a floresta pode falar ao mundo.

Foto: Arquivo pessoal

Foto de capa: Excelência Divulgações