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De pasto degradado a cacau orgânico: a aposta produtiva que virou um negócio de sucesso no Sítio Tolú, no Pará

Produtores reflorestam área na Amazônia e conquistam mercado com produção agroflorestal

Quem chega hoje ao Sítio Agroecológico Tolú encontra cacau sombreado por árvores nativas, frutas dividindo espaço com hortaliças e um sistema produtivo que pulsa diversidade. Olhando a beleza do sistema agroflorestal, é difícil acreditar que a paisagem ali nem sempre foi assim. Em 2009, quando a agrônoma Luciana Athayde e o marido Tomires Athayde compraram os 26 hectares da propriedade, que fica em Igarapé-Açu, no Pará, o cenário era outro: um imenso pasto degradado, solo exaurido após anos de pecuária e fruticultura convencionais.

“A área estava praticamente abandonada. Nossa primeira decisão foi reflorestar”, lembra Luciana, mestra em Agricultura Orgânica. Dos 26 hectares, 20 foram destinados ao reflorestamento e à preservação. Parte recebeu plantio direto de espécies; outra foi deixada para regeneração natural, sem qualquer interferência. “Tem área que a gente nem entra. É a natureza fazendo o trabalho dela.”

Nos 6 hectares produtivos, o modelo é agroflorestal e totalmente livre de insumos químicos. O carro-chefe é o cacau, cultivado em consórcio com outras espécies, dentro de um sistema que integra frutas, hortaliças e criação de galinhas caipiras. A lógica produtiva também é circular. O lixo tem destino: cerca de 20 toneladas de resíduos urbanos são reaproveitadas anualmente na compostagem, fortalecendo o solo e reduzindo as emissões.

Depois de anos produzindo cacau com alta qualidade, veio o segundo passo: transformar o fruto amazônico colhido em um produto final. Em 2023 nasceu o chocolate Tolú. Oriundo integralmente no sítio, o produto é orgânico, sem glúten e sem lácteos, feito apenas com cacau e açúcar orgânicos, em versões 50%, 60% e 70%. A marca carrega também uma história pessoal. “Eu sou baiana, vivi o auge do cacau no sul da Bahia nos anos 80. Meu sonho de infância era produzir chocolate. Mais de 30 anos depois, consegui realizar aqui no Pará, produzindo um chocolate fino, de qualidade. Inclusive de uma amêndoa que eu ajudei plantar e cultivo até hoje.”

Desde o início, o casal optou por não vender amêndoas in natura. A estratégia sempre foi agregar valor dentro da porteira. A agricultura regenerativa, segundo Luciana, impactou diretamente o negócio. Trouxe visibilidade nacional, premiações e aumento de produtividade. No cacau, ela afirma que o sistema agroflorestal permite colher acima da média nacional registrada em cultivos convencionais, com um diferencial: qualidade e rastreabilidade total.

A decisão de produzir de forma regenerativa por princípios tornou-se também uma vantagem mercadológica. Localizado em uma região marcada pelo monocultivo de dendê e pela pecuária extensiva, o sítio acabou se tornando vitrine de um modelo alternativo. “No início a gente começou com a proposta de fazer o que era correto, que era regenerar uma área que estava abandonada. Hoje colhemos os bons frutos disso.” 

O crescimento da demanda pelo chocolate agora impõe novos desafios: ampliar infraestrutura, logística e capacidade produtiva sem perder os princípios que deram origem ao projeto.

Para quem ainda atua no modelo convencional e pensa em migrar, Luciana é pragmática. Diz que a transição exige coragem, mas não precisa ser radical. “Não é para mudar tudo de uma vez. Começa numa área pequena, paralela ao sistema convencional. Aprende com os erros e acertos. Quando aprender e ver que vale a pena, amplia.”

A experiência no Sítio Tolú mostra que a Amazônia pode ser um local fértil e próspero mercadologicamente, unindo produção e sustentabilidade com o cultivo de produtos da sociobiodiversidade. Em uma região com avanço de desmatamento para abertura de pasto, Luciana ensina que recuperar também pode ser produtivo e que o futuro do agronegócio ali passa exatamente por valorizar aquilo que a floresta já oferece. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotos: arquivo pessoal