SOMOS UMA REDE DE + DE 14 MIL PRODUTORES

RECA aposta na agrofloresta como caminho de renda, resiliência e conservação na Amazônia

Em Rondônia, associação de produtores transformou um desafio de adaptação em um dos modelos mais consolidados de produção agroflorestal do país

O que hoje é referência em sistemas agroflorestais na Amazônia nasceu de uma necessidade concreta de adaptação. Formado por famílias vindas de diferentes regiões do Brasil, o Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado (RECA) surgiu no fim dos anos 1980, em Nova Califórnia (RO), em um contexto de grandes desafios, marcado pelo isolamento, pela falta de infraestrutura e por um território completamente distinto daquele que os produtores conheciam.

Diante da dificuldade de implantar culturas convencionais, como milho, arroz e feijão, e da ausência de mercado e logística para escoamento, os agricultores passaram a observar os sistemas produtivos locais e desenvolver, inicialmente de forma empírica, o cultivo consorciado de espécies amazônicas, dando origem a um modelo que hoje é reconhecido como sistema agroflorestal (SAF).

Atualmente, o RECA reúne pequenos produtores organizados em associação e cooperativa, estruturando um modelo que integra produção, beneficiamento e comercialização. Cada produtor cultiva em sua propriedade espécies como cupuaçu, açaí, castanha, andiroba e copaíba, entregando a produção à cooperativa, responsável pelo processamento e pela inserção no mercado.

Mais do que um arranjo produtivo, o modelo se sustenta em uma lógica de geração de renda aliada à conservação ambiental. A diversidade de espécies favorece a manutenção da biodiversidade, a proteção de nascentes e a melhoria da fertilidade do solo. Um dos pilares desse sistema é o reaproveitamento de resíduos agroindustriais, como cascas e sementes, transformados em composto orgânico e devolvidos às áreas produtivas, fechando ciclos e reduzindo a dependência de insumos externos.

Esse conjunto de práticas tem permitido ganhos consistentes de produtividade por hectare, ao mesmo tempo em que mantém a floresta em pé. Em áreas com manejo orgânico, os efeitos são ainda mais evidentes, com maior diversidade biológica e melhor equilíbrio ecológico nas propriedades.

Ao longo dos anos, esse posicionamento também abriu portas no mercado. O RECA se consolidou como fornecedor de insumos da sociobiodiversidade para a indústria, com destaque para a parceria de mais de duas décadas com a Natura, para fornecimento de manteiga de cupuaçu, uma relação construída a partir do compromisso socioambiental da cooperativa.

Apesar dos avanços, o modelo ainda enfrenta desafios relevantes. Questões como pragas e doenças nos sistemas agroflorestais, limitações logísticas, necessidade de tecnologia para processamento e alta carga tributária sobre produtos da sociobiodiversidade impactam diretamente a competitividade da produção amazônica. Ao mesmo tempo, há uma demanda crescente por pesquisa, inovação e capacitação para fortalecer o sistema.

Ainda assim, a experiência do RECA demonstra que a agrofloresta pode ser uma estratégia viável e escalável de produção, desde que planejada de acordo com as condições locais e com conhecimento técnico adequado. Mais do que uma alternativa produtiva, o modelo aponta para uma mudança de lógica, integrando produção, conservação e desenvolvimento econômico em um mesmo sistema.

Em um cenário de crescente pressão sobre os recursos naturais, iniciativas como o RECA reforçam que é possível produzir na Amazônia com base na diversidade, na regeneração e na construção coletiva de soluções adaptadas ao território.

 

Sede da Cooperativa Agropecuária e Florestal do Projeto Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado (RECA), na BR-364, Km 1071, Distrito de Nova Califórnia, Porto Velho, Rondônia. Foto Marizilda Cruppe/FUNBIO.

 

Fotos de arquivo do RECA