Modelo regenerativo encurta ciclo do gado, dobra a eficiência do uso da terra e transforma áreas degradadas em ativo ambiental.
A pecuária está no centro do debate climático e produtivo no Brasil. A atividade é a responsável pela maior parte das emissões de metano no país e a principal vetora do desmatamento. Na Amazônia, a área voltada para pastagens na região saltou de 12,7 milhões para 59 milhões de hectares nas últimas décadas, segundo dados do MapBiomas, sendo boa parte dessa expansão ligada à pecuária extensiva de baixa produtividade. Nesse cenário, soma-se a pressão do mercado externo por cadeias produtivas de carne livre de desmatamento.
Mas há dez anos, Luis Fernando Laranja se dedica a mostrar que a pecuária, longe de vilã, pode ser uma das principais estratégias de impacto ambiental no uso da terra no Brasil, caminhando lado a lado com a preservação. Para ele, a resposta para isso é simples, e gera retornos não só no que tange a sustentabilidade, mas também grandes ganhos produtivos e econômicos: a recuperação de pastagens já abertas e degradadas, transformando-as em sistemas regenerativos de alta produtividade.
Ele começou a aplicar esse modelo na produção de leite orgânico, criando a primeira operação certificada como carbono neutro no Brasil, além de orgânica e com selo internacional de bem-estar animal. Nos últimos cinco anos, ampliou a estratégia para o gado de corte.
Hoje, as operações sob sua gestão somam aproximadamente 19 mil hectares no norte do Mato Grosso, norte do Tocantins e oeste da Bahia, sendo mais de 9 mil hectares já convertidos para sistemas silvipastoris.
O ponto de partida são áreas de pastagens degradadas, típicas da pecuária extensiva de baixa produtividade. Nelas, o capim é pobre em nutrientes, o solo perdeu fertilidade e o gado pode levar até quatro anos para atingir o peso de abate. Esse modelo ocupa grandes áreas e, historicamente, alimentou a expansão sobre novas fronteiras a partir de desmatamento.
Na recuperação adotada por Laranja, árvores são implantadas no pasto e uma diversidade de capins passam a compor a forragem, enriquecendo o solo com matéria orgânica e nitrogênio, reduzindo a dependência de fertilizantes químicos. A presença de árvores melhora o microclima, oferece sombra ao rebanho e contribui para o sequestro de carbono.
Com melhor nutrição e conforto térmico, os animais chegam ao peso de abate em cerca de dois anos, metade do tempo observado em sistemas convencionais. A redução do ciclo produtivo significa também menos tempo emitindo metano, gás liberado durante a digestão dos bovinos.
Além da queda na intensidade de emissões por quilo de carne produzida, o sistema aumenta a taxa de lotação, recupera a matéria orgânica do solo e melhora a infiltração de água. Ao tornar áreas já abertas mais produtivas, a estratégia reduz a pressão por novos desmatamentos.
Se no passado a lógica era avançar sobre novas áreas para produzir mais, a mudança de chave agora está em produzir melhor onde o pasto já existe. Em vez de vetor de desmatamento, o pasto restaurado pode se tornar um aliado ambiental. As pressões internacionais e os alertas climáticos já avisam que o futuro da carne no Brasil passa justamente por essa virada dentro da porteira.

Foto: arquivo pessoal