30Empreendedora ribeirinha fundou a Elka Cacau e Chocolate e mostra como a sociobiodiversidade amazônica pode gerar renda, fortalecer comunidades e manter a floresta em pé
A produção de cacau na propriedade de Elka Clara, em Barcarena, no Pará, por décadas teve destino certo: era vendida in natura para intermediários na cadeia produtiva que repassavam o produto para outros compradores. Mas há três anos, a produtora resolveu mudar esse destino e ela mesma produzir o próprio chocolate. Não foi uma decisão fácil para quem mora no interior do estado, região onde o acesso ao mercado ainda é um desafio cotidiano, mas foi um passo que abriu portas para uma nova história.
A produção vem de algumas árvores nativas de cacau na pequena propriedade familiar que sempre estiveram lá. O que mudou foi o olhar sobre elas. A ideia de produzir o próprio chocolate começou após participar de um curso de fermentação promovido pela cooperativa local de açaí. Nele, Elka aprendeu não só a processar o cacau, mas também a cuidar dele com outro nível de atenção: como colher sem agredir a árvore, como podar, como preservar. “No curso de fermentação já tinha um estudo de preservação. O professor veio nos ensinar a fermentar e já nos ensinou a preservar. Foi toda uma aula de conservação mesmo”, lembra ela.
Na primeira fermentação, feita na cozinha de casa, notaram que era possível fazer chocolate de qualidade e surgiu a ideia de participar do Chocolat Festival Xingu. Junto com três parceiras, Elka teve uma semana para criar receitas e testou tudo o que pôde. O resultado surpreendeu. O chocolate foi bem aceito, e ali nasceu a certeza de que valia a pena seguir em frente com a Elka Cacau e Chocolate.
A floresta como sistema produtivo
A produção da Elka Cacau e Chocolate parte do que a própria floresta oferece. Além do cacau nativo do seu hectare, Elka absorve a produção de pequenos agricultores da região, como cacau, castanha-do-Pará e cupuaçu. O que antes seguia direto para fora da região, sem processamento e sem valor agregado, agora é beneficiado localmente e vendido como chocolate.
O manejo adotado é inteiramente nativo e regenerativo. Não há adubação química nem irrigação canalizada. A fertilidade do solo vem da própria folhagem que cai das árvores. Nada é derrubado. “Não tem desmatamento, não tem nenhum tipo de agressão à natureza. É bem mesmo nativa o que nós temos aqui”, afirma Elka. A lógica consiste em absorver o que a floresta oferece para consumo e retornar o que sobra como resíduo orgânico. “De nenhuma forma eu vejo isso como degradação. O cuidado que a gente está fazendo hoje, eu vejo como investimento de um futuro melhor.”
O produto final carrega essa origem. São chocolates sem conservantes, sem gordura hidrogenada e sem lactose, que incorporam frutas e ingredientes da sociobiodiversidade amazônica e que chegam ao consumidor com rastreabilidade e identidade. Para Elka, consumir esse chocolate é um ato de preservação. “Ele envolve todo o amor, todo o ritual de carinho, de paixão pela vida, pela saúde e pela natureza. Quem adquire um produto da sociobiodiversidade está colaborando com a preservação da natureza”.
A história da Elka Cacau e Chocolate é a prova de que a Amazônia tem muito mais a oferecer. Quando a floresta é tratada como patrimônio produtivo, e não como obstáculo, ela gera oportunidades. Para ela, investir nos produtos da sociobiodiversidade é investir em saúde, em soberania alimentar e em dignidade para quem vive nas margens do rio. “Eu vejo um futuro melhor para quem é ribeirinho através do nosso trabalho e através da própria comunidade se unindo em prol do bem-estar de todos.”


Fotos: arquivo pessoal