Em Bueno Brandão, produção de café sombreado, recuperação de nascentes e agroflorestas transformaram uma antiga área de pastagem degradada

O Café Campo Místico, em Bueno Brandão (MG), foi idealizado por Valmor Santos Filho e sua parceira Adriane Freddi dos Santos. Desde o início dos anos 2000, a propriedade vem construindo um modelo de produção baseado no cuidado com o solo, a água e a biodiversidade, muito antes de o conceito de agricultura regenerativa ganhar força no setor.

A preservação das nascentes, o cuidado com o solo e o incômodo com o uso excessivo de herbicidas sempre estiveram presentes no manejo da fazenda. Em uma área que antes era ocupada apenas por pastagem degradada, a família começou a recuperar matas ciliares, plantar árvores frutíferas próximas aos cafezais e reconstruir o equilíbrio da paisagem.

A mudança mais profunda veio entre 2016 e 2017, quando o Campo Místico implantou os primeiros sistemas agroflorestais com café sombreado. Na época, o modelo ainda era visto com desconfiança no setor cafeeiro. Mas a observação prática já mostrava um caminho diferente. Os cafés produzidos próximos às áreas de mata apresentavam bebida mais complexa, plantas mais saudáveis e frutos mais doces.

Hoje, a propriedade trabalha com diferentes modelos de agrofloresta, combinando café com árvores nativas, frutíferas e áreas restauradas. O resultado aparece tanto na paisagem quanto na produção. Segundo Valmor, os cafeeiros em ambientes mais equilibrados sofrem menos estresse climático e direcionam mais energia para a formação dos frutos, o que se reflete diretamente na qualidade da bebida.

Além do café, o processo regenerativo transformou a dinâmica ambiental da propriedade. Um rio que antes era apenas um pequeno filete de água passou a manter fluxo constante após a recuperação da mata ciliar e o isolamento das áreas de nascente. Em parceria com vizinhos e com apoio da Associação Copaíba, a fazenda ajudou a criar um corredor ecológico conectando fragmentos de mata nativa da região.

A biodiversidade ganhou ainda mais força com a introdução de abelhas nativas sem ferrão. O que começou com quatro caixas em um projeto de reflorestamento se transformou em mais de 30 colmeias na propriedade. Além da preservação das espécies e da contribuição para a polinização, a produção de mel e própolis passou a integrar a renda da fazenda.

No manejo agrícola, a regeneração também trouxe mais autonomia. A propriedade reduziu drasticamente a dependência de insumos externos, produzindo biofertilizantes e utilizando matéria orgânica obtida localmente. Para Valmor, esse modelo fortalece não apenas a sustentabilidade ambiental, mas também a segurança econômica da produção diante das oscilações do mercado global de fertilizantes.

Mais do que uma escolha de nicho, o produtor acredita que a regeneração será decisiva para o futuro da cafeicultura, especialmente nas regiões de montanha. Hoje, onde antes havia pasto degradado, o Campo Místico cultiva café em meio à floresta, mostrando que produção agrícola, restauração ambiental e qualidade podem caminhar juntas.

Fotos : Carlos Cubi